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domingo, 14 de dezembro de 2008

90. PAZ E BEM

PAZ E BEM
Margaret Pelicano

"O melhor da festa é esperar por ela", disse sempre minha mãe.
A psicologia, geralmente aponta as mães, como as geradoras dos conflitos dos filhos. Eu discordo veementemente, não só por que sou mãe, mas em sendo, percebo que muito do que erramos tem motivos ancestrais, vivencias pessoais que faz com que elas tanto errem quanto acertem, seres humanos que são. Demais a mais, elas acertam muito, uma vez que nos ensinam tudo.
Tenho uma amiga que ao ser repreendida pela mãe certa vez, retrucou e e genitora disse a seguinte frase: - 'Fulana, mãe é uma só', ou que ela respondeu: 'Graças a Deus, mais de uma eu não aguentaria'...Brincadeiras à parte, minha proteção está no que aprendi com minha mãe: o medo na dose certa, a coragem também, a formação do caráter honesto, a proteção aos filhos, o amor, e um sem número de interesses mais.
No entanto, estou aqui para falar de festa. Os preparativos dela me encantam, principalmente no Natal. Aos poucos as lojas vão se enfeitando e a casa da gente, idem. Músicas natalinas são ouvidas e exigidas nos eventos de Natal. As pessoas sorriem mais, ficam mais gentis, algumas se preparam para as doações anuais: presentes para asilos, creches, shows cuja entrada são quilos de alimento, e por aí vai. Pelo menos uma vez no Ano, Jesus consegue o milagre da modificação humana. Temporária sim, mas com algum sucesso.
Os homens se multiplicaram em número, mas devem ao aniversariante a multiplicação da humanidade íntima. Os sonhos continuam individuais e não coletivos. Viagens, passeios, férias, festas, cada vez mais privativos. Mas se a festa do aniversário do homem mais famoso dos últimos tempos implica no coletivo, eu deixo de entender os festejos. Não seria o caso de se fechar uma rua e os vizinhos se confraternizarem, fazendo antes suas orações e depois compartilharem com humildade o pão? Não seria o caso de cada líder, de cada associação de cada prefeito, entusiasmado pelo bem, recolher com seus funcionários doações para as necessidades dos outros? Isto sem falar da iniciativa de cada um.
É isto o que Jesus espera de nós: na época do advento, cada um já preparar o seu presente para o desconhecido, alimentando-o, aquecendo-o, medicando-o nas necessidades inerentes ao corpo, e, o carinho do espírito. Lembrem-se, 'o melhor da festa é esperar por ela'. Abração fraterno, um Natal de Paz de Espírito, um Ano Novo com a consciência renovada pelo bem praticado.

Brasília - 14/12/2008


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

85. "Tudo o que fizerdes a um destes pequeninos a mim o fazeis" - Jesus

GOIABADA CASCÃO
Margaret Pelicano

Um esfrega, esfrega sem fim, a roupa a 'quarar', depois enxagüar, bater, torcer, passar por várias águas até tirar o último resquício de sabão. A seguir, passar anil, pendurar no varal com pregadores para não cair na terra do terreiro. Se chovia, era um berreiro: - recolham a roupa! Recolham a roupa!
Ao ferro de passar a carvão, substituiu o ferro elétrico. Este, não parava de exalar calor, dar artrite nos mais velhos, queimar dedos ou pulsos quando o cabo virava. A roupa limpinha exalava o cheiro da limpeza. O sabão de cinza fabricado em bolas, de maneira artesanal, clareava tudo. Cabelos de mulher bem brilhantes? Sabão de cinza! Cabelos macios? Bezuntar com banha de porco, depois lavar com sabão de cinza e por último sabonete cheiroso. Quem podia comprava um flaconete de xampu. Creme rinse? Muito tempo depois...
Esta a vida do interir por volta de 1960, 70...!
Só rádio na sala. TV, geladeira nem pensar, carne de porco armazenada na banha para não estragar. Doces em compotas para durar até o inverno ou até a última safra de frutas: pêssegos, figo, marmeladas, goibadas, laranja em casca... Nada se perdia, tudo se aproveitava! Casca de laranja comum, secando em varais sobre o fogão à lenha. Serviam para o chá que combatia a azia e também para acender o fogo quando a lenha estava molhada e fria. Louça? Lavada na bacia: uma com sabão para ensaboar, outra com água limpar para enxagüar.
Sobre o telhado, uma caixa d'água para o banho e pias, com muita economia. No quintal uma caixa d'água para o tanque, para as limpezas do lar, para molhar o quintal antes de varrer. Lavar a caixa um prazer. Entrar dentro dela...hum!!! Piscina de pobre, delícia!
Na limpeza do assoalho, cera derretida com gasolina; escovão - provocador de calos nas mãos das mocinhas; flanela, óleo de peroba nos móveis. Algum tempo depois uma enceradeira! Um luxo!
Telefone? Tirar do gancho, esperar a telefonista atender, dizer o número, aguardar a ligação.
Os tempos mudaram e muito: tecnologia! Difícil para os mais velhos! Tão necessária aos jovens que fazem do celular um brinco eterno. A vida ficou mais fácil e menos consciente. Se antes repartía-se o alimento, hoje, joga-se fora por falta de tempo, por que o outro tem que batalhar pela vida e ganhar o próprio sustento. Caridade? Que palavra é esta? Existe?
Ficou-nos o medo, a insegurança, a crueldade, a violência. Onde o homem do passado, religioso e calmo, amigo e companheiro! Saudades dos tempos de outrora: muito trabalho, uma canseira, mas um sono gostoso e saudável, esperança que não acabava mais, fé nos homens, cordialidade, bons dias, boas tardes, honestidade...
A noite chegava, dividia-se a televisão da vizinha, outros nas calçadas sentados aproveitando a fresca da noite, alguns ajoelhados rezando o terço...Ave Maria, Ave Maria...

Brasília - 03/12/2008





segunda-feira, 28 de julho de 2008

56. QUE MINHA ÁRVORE NÃO MORRA ANTES DE MIM, PARA EU NÃO ME ENTRISTECER!




MINHA ÁRVORE

Margaret Pelicano

Eu quero uma casa com quintal e pequeno jardim na frente; quero uma árvore frondosa nos fundos, com banquinho circular para usufruir de sua sombra no verão e do perfume de suas flores na primavera!
Quero uma árvore com ouvidos para ouvir meu canto em dias de paz, ouvir minhas lamúrias em dias de tristeza, acariciar-me com seu abraço quando ao circundá-la com meus braços, ela sentir minha solidão.
Quero uma árvore que tenha formigas passeando nela, para poder colocá-las no chão da minha infância, de recordação!
Quero uma árvore que dê frutos saborosos, para colhê-los com a mão, e, ali mesmo, debaixo, lambuzar-me do doce suco, lambrecar os lábios, tirar fiapos dos dentes, virar criança até à velhice.
Quero uma árvore que me conte seus segredos, sobre seus filhos, seus sentimentos, suas sedes, seus lamentos, suas podas...que me diga quantos passarinhos já pousaram nela e despentearam seus cabelos, quantos fizeram ninhos, quantos corais matinais e vesperais, quantas vozes graves, agudas, contraltos, quantos bichinhos lhe confidenciaram segredos...
Se me permitir, quero pendurar uma rede, se não for machucar os braços dela, e deitada ali, ficar confabulando, contando histórias, e ouvindo no silêncio da brisa suas verdades! Vez em quando limpar o banco, sentar-me nele, abraçada às pernas e só curtir quietude, tristeza, ou sorrir para os insetos passeando por ela...
Quero esta árvore dos meus sonhos.
Se perceber vizinhos com gaiolas, quero à noite pedir que ela vigie a casa deles, vou soltar os pássaros e vê-los pousar nos mais altos galhos, enquanto sorrio para a cumplicidade dela...
Ela, a princesa coroada da casa! Ela minha amiga. Do meu quarto quero vê-la, admirá-la, piscar o olho antes de dormir, enviar beijos com as duas mãos! E desejar que ninguém a derrube, nem maltrate, nem a risque para fazer coraçõezinhos com flechas de cupido! Nem pelo amor mais desvairado!
Quero esta árvore ainda nesta vida, por que em outras, posso estar querendo uma floresta de macieiras! E quero mais: quero que todos queiram uma árvore, para compreender a importância dela pela vida inteira!

Brasília - 27/07/2008
Crônica inspirada em texto de Mª Augusta Christo de Gouvêa - O CANTO DO CURIÓ - para esta escritora, a minha homenagem!